Ciclo Seguro Automóvel: Tendências e Riscos Emergentes
Curso 1: Evolução da Sinistralidade Automóvel em Portugal
Intervenção de Abertura do Presidente da APS
26/03/2026
A sinistralidade automóvel representa um tema crónico e com impacto transversal na sociedade, constituindo, no nosso caso, um problema grave, que acarreta custos muito significativos ao nível pessoal, familiar, laboral e económico. Os custos humanos e materiais que decorrem da sinistralidade automóvel têm reflexos nos planos social e económico, mais alargados. Tratando-se de um problema mundial, afeta diferentes países e regiões de forma diversa, embora também se assista a um leque variado de soluções, no plano geográfico.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima em cerca de 1,19 milhões o número anual de mortes na estrada. Os acidentes de viação representam a oitava principal causa de morte, ao nível mundial, e a principal causa de morte entre crianças e jovens adultos.
Relativamente à morbilidade e ao impacto na saúde pública, a OMS identifica a sinistralidade automóvel como a principal causa de morte e incapacidade para crianças e jovens adultos com idades compreendidas entre os 5 e os 29 anos. Por outro lado, dois terços das fatalidades em acidentes de tráfego envolvem pessoas em idade ativa, entre os 18 e os 59 anos. Além das vítimas mortais, estima-se que entre 20 a 50 milhões de pessoas sofram ferimentos não fatais, todos os anos, dos quais resultam, frequentemente, incapacidades permanentes.
Estes acidentes custam à maioria dos países cerca de 3% do seu Produto Interno Bruto (PIB), devido a despesas médicas, perda de produtividade e danos materiais. Note-se, porém, que nove em cada dez mortes na estrada ocorre em países de rendimentos baixos e médios, não obstante estes deterem somente cerca de 60 por cento do parque automóvel mundial.
Consciente destes custos, o poder político, ao nível nacional e da UE, tem apostado em medidas de prevenção, como forma de mitigação dos efeitos. É disso exemplo a Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária 2021-2030 – Visão Zero 2030, que expõe a perspetiva de longo prazo da política de segurança rodoviária de Portugal, em alinhamento com os compromissos internacionais e com a política de segurança rodoviária da Comissão Europeia. Este programa pretende fixar, a médio prazo, uma política de segurança rodoviária que permita minimizar o risco de envolvimento em acidentes com consequências graves ou fatais.
No âmbito da sinistralidade rodoviária, verifica-se que Portugal apresenta indicadores menos favoráveis do que a média europeia. Enquanto o nosso país registou 60,8 vítimas mortais por milhão de habitantes, em 2023, a média da União Europeia (UE) cifrou-se em 45,6 por milhão de habitantes, situando-se o valor nacional mais de 30 por cento acima . A estes dados comparativos com a realidade da UE, acresce que, em 2024, o número global de vítimas de acidentes de viação (47.366) aumentou 2,9 por cento face ao ano anterior.
De acordo com a estatística anual da APS – “Análise Técnica Automóvel” –, 2024 foi mais um ano de expansão para o ramo Automóvel, quer em termos de produção, quer em termos de sinistralidade, na linha do que se tem verificado desde 2020.
Em 2024, foram abertos quase 975 mil processos de sinistros, representando um crescimento homólogo de 3,9 por cento. Embora mais moderado do que nos anos anteriores, este crescimento não deixou de gerar um novo agravamento da taxa de frequência do ramo.
No que respeita aos montantes pagos no ano de 2024, estes ascenderam a mais de 1,6 mil milhões de euros, um crescimento de 11 por cento face a 2023. Seguindo a mesma tendência da taxa de frequência, a taxa de sinistralidade (medida pelo rácio entre os montantes pagos e os prémios) voltou também a agravar-se em 2024, atingindo os 69 por cento.
Entretanto, temos vindo a assistir a uma progressiva — e cada vez mais acelerada — introdução de novas variáveis, decorrentes da inovação tecnológica, com efeitos sobre os setores automóvel e segurador. A crescente penetração dos veículos elétricos, a proliferação de sensores e sistemas avançados de assistência à condução, bem como a evolução e alteração dos materiais utilizados na construção automóvel — mais sofisticados e dispendiosos — têm conduzido a uma modificação estrutural do risco, com impacto direto na complexidade e aumento dos custos de reparação, para além de períodos mais prolongados de imobilização dos automóveis, particularmente dos veículos elétricos e híbridos. No caso dos veículos elétricos, constata-se que estes apresentam riscos específicos, que antes não existiam, como os riscos de incêndio e da duração das baterias, sendo que o custo destas últimas, cuja reparação faz incrementar os custos com sinistros, tem vindo a aumentar gradualmente, ao longo dos danos.
Tal ocorre a par do surgimento da nova mobilidade urbana, nomeadamente com a introdução de e-scooters cuja condução não carece de carta de condução e que usualmente ocorre sem o recurso a proteção mínima, nomeadamente o capacete. Por outro lado, os modelos mais simples de e-scooters não obrigam à contratação de um seguro, embora sejam geradores de danos, o que coloca, necessariamente, desafios para a sociedade em geral e para o seguro automóvel em particular.
Importa também destacar a digitalização dos veículos, que passaram a incluir software embedded e carecem de atualizações remotas, conduzindo à emergência de novos riscos, quer de cibersegurança, quer do funcionamento dos próprios sistemas. O caminho para a condução autónoma acentuará o leque dos riscos emergentes. Se, por um lado, se espera que os veículos autónomos possam vir a reduzir a frequência de sinistros, por outro, estes veículos levantam um conjunto de outros temas para os quais ainda não há resposta, nomeadamente a responsabilidade num acidente. Sobre quem recairá o ónus? Recairá sobre o utilizador, o proprietário, o software, ou o fabricante? E que seguro deve responder perante danos causados a terceiros? O seguro de Responsabilidade Civil Automóvel ou um seguro de Responsabilidade Civil Produtos?
A este propósito, convém desde já esclarecer que o seguro é do carro e não da pessoa, pois mesmo numa garagem uma viatura tem de ter seguro.
Em simultâneo, assistimos também a alterações de padrões do comportamento do consumidor, nomeadamente ao surgimento de novas tendências associadas a consumidores mais jovens, relacionadas com um estilo de vida mais flexível e com a assunção de menos compromissos, no que toca à mobilidade. A preferência por soluções de carsharing, a utilização das e-scooters, comummente partilhadas, e a procura crescente de seguros flexíveis são novas realidades a que o setor segurador se terá de adaptar e dar resposta.
Sob a temática da sinistralidade, existem ainda outros tópicos que são recorrentes, no sentido em que perduram no tempo, pois não houve ainda a arte e o engenho de lhes por cobro. Esses são também influenciados pelos novos riscos e desafios de que antes falámos.
É o caso do combate à fraude, que continua a ser uma ameaça com consequências reais. De acordo com dados do mercado, em 2024 foram detetados mais de 13.000 sinistros automóvel fraudulentos, que geraram uma poupança média de cerca de 3.000 euros por sinistro.
O mesmo se passa em relação às indemnizações em caso de danos corporais. Em nome da igualdade, da transparência e da segurança jurídica seria vantajosa a criação de uma lei que fixasse valores de indemnização justos, adequados à realidade socioeconómica nacional, lei essa que se pretende flexível, permitindo o ajustamento ao caso em concreto, e, fundamentalmente, que reunisse um alargado consenso da sociedade em geral e, em particular, dos representantes das vítimas, dos seguradores, dos advogados, dos juízes, entre outros.
A redução da sinistralidade não pode deixar de ser o primeiro e mais importante desafio de todos os atores com responsabilidades ao nível da mobilidade e da circulação rodoviária.
Os recentes desenvolvimentos de que falámos geram novas exigências, ao nível da sinistralidade. No entanto, estes mesmos desenvolvimentos tecnológicos dos veículos, acompanhados pela recolha massiva de dados de condução, abrem caminho a modelos de tarifação mais dinâmicos e personalizados, como o “pay-as-you-drive”, o “usage-based insurance”, ou o “insurance on-demand”, colocando em causa os modelos tradicionais de subscrição e obrigando à revisão do pricing. Assim, encontramo-nos perante uma tendência em que as seguradoras, cada vez mais, surgirão como agentes ativos da prevenção, pela possibilidade de favorecerem ou penalizarem comportamentos.
A APS tem dado o seu contributo para o desenvolvimento e colaboração em ações de sensibilização para a segurança rodoviária, nomeadamente com a Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP), da qual integra o seu Conselho Geral.
Através da CASA e da sua Academia, lança agora este ciclo de formação dedicado ao “Seguro Automóvel: Tendências e Riscos Emergentes” que pretende fomentar a reflexão sobre a evolução da sinistralidade rodoviária e os desafios futuros do seguro automóvel:
- O que está a ser feito ao nível da prevenção da sinistralidade?
- Quais os objetivos traçados a nível nacional e europeu?
- Como nos estamos a preparar para os novos riscos emergentes de que antes falámos?
- Como é que a inovação tecnológica, como a proliferação de sistemas avançados de assistência à condução, está a contribuir para a segurança rodoviária?
- Quais os impactos ao nível do custo com sinistros?
São estas algumas das perguntas que hoje iremos cobrir ao longo deste primeiro curso do ciclo, que contará com a participação de especialistas do setor segurador e com o Presidente da ANSR.
A evolução do seguro automóvel será definitivamente moldada pelos novos desafios e pela resposta que todos os agentes envolvidos derem a estas perguntas.